Hormônio do sono: o que saber?

Distúrbios de sono afetam cerca de 65% dos brasileiros, sem diferenciar adultos ou crianças. Com variações apenas na forma de apresentação, eles foram mais frequentes na população brasileira durante a pandemia, quando 70% dos brasileiros revelou ter dificuldades para dormir, segundo uma pesquisa divulgada pelo Instituto do Sono.

Considerada um distúrbio comum, a insônia é definida pela dificuldade para iniciar ou manter o sono, provocando sonolência durante o decorrer do dia.

Variações do sono desde o nascimento

Enquanto os recém-nascidos obedecem um ritmo de sono chamado de ultradiano (que independe do ciclo noite/dia), com períodos de 3 a 4 horas de sono contínuo, é a partir dos primeiros meses de vida que começa a consolidação do ciclo circadiano (que depende da noite/dia). Já no primeiro mês, os períodos de sono noturno passam a ser mais longos. Por volta dos 6 meses, o bebê já consegue dormir por dois períodos contínuos de sono. Com o amadurecimento e modificações das estruturas reguladoras do sono, ao atingir 12 meses espera-se que o sono do bebê se consolide durante a noite, com cochilos durante o dia.

A partir dos 5 anos, a criança já não tem mais necessidade da soneca durante o dia, e até que atinja os 10 anos pode ocorrer uma redução gradativa do tempo total de sono noturno. Neste ritmo, ao atingir a pré-adolescência (dos 11 aos 13 anos) a duração do sono noturno atinge 9 horas em um cenário ideal. Já os adolescentes entre 14 e 16 anos tem um ciclo de sono que varia de 8,6 a 6,4 horas por noite, com diferença perceptível entre os dias com atividades escolares e finais de semana.

Por que dormimos menos?

Ao atingir a idade adulta, o indivíduo deveria dormir em torno de 7 a 8 horas seguidas. O valor vai diminuir progressivamente conforme o envelhecimento, mas pesquisas já identificam uma redução significativa nas horas de sono da população brasileira. Dados da Associação Brasileira do Sono apontam que o brasileiro dormiu apenas 6,4 horas por dia em 2019. O valor se tornou ainda menor com a pandemia.

Grande parte do ciclo de sono e vigília é ditado por um hormônio chamado melatonina. Ele é produzido pela glândula pineal, que fica bem no meio do cérebro.Conforme o sol de põe, a produção de melatonina começa como uma forma de preparar o organismo para o sono noturno. Ela será interrompida assim que o dia clarear, para que o corpo consiga despertar para as atividades diárias.

Há quem defenda que a secreção de melatonina foi alterada desde que a humanidade passou a conviver com aparelhos elétricos. Isso porque a luz emitida por eles acaba inibindo a produção deste hormônio do sono, acelerando um processo que ocorreria naturalmente com o avançar da idade. Idosos ou pessoas afetadas por doenças específicas produzem menor quantidade de melatonina quando comparadas aos mais jovens.

Além de influenciar nos processos fisiológicos, ela também atua no sistema imunológico e estimula a formação de anticorpos. E para além do sono, também é responsável pelo controle das alterações sazonais, já que em condições normais, é produzida em maior quantidade no inverno quando as noites são mais longas do que no verão, quando as noites são mais curtas. O sinal temporal dado pela melatonina ajuda o organismo a organizar as funções que dependem da duração do dia, seu comportamento, reprodução, crescimento de pelos, etc.

Comprar ou não?

Em resposta ao hábito de dormir pouco, o hormônio do sono passou a ser comercializado em farmácias sem necessidade de prescrição médica. A venda de melatonina foi liberada pela Anvisa em outubro de 2021 em uma decisão alinhada ao que já ocorre em vários países europeus e na América do Norte, enquadrada como um suplemento alimentar.

Especialistas afirmam que a dose aprovada no Brasil (0,21 mg) está muito próxima ao que é produzido pelo organismo, uma forma de diminuir o risco de eventos adversos. Em outros países, pode-se encontrar doses de até 5 mg. Mas ainda não existe um consenso sobre qual é a dose adequada para usufruir de seus efeitos, especialmente porque os exames para medir a quantidade do hormônio e determinar sua deficiência não estão disponíveis em larga escala.

No Hospital Salvatoriano Divino Salvador, em Videira (SC), pode-se realizar o exame de polissonografia, que fornece dados para uma avaliação do sono do paciente e registra as variações que ocorrem durante o período de descanso. As informações são obtidas através de eletrodos fixados no couro cabeludo e no corpo, bem como um sensor no dedo, para gerar parâmetros que detectem as alterações que o médico suspeita.

Mesmo que esteja disponível nas farmácias, o uso do hormônio do sono ainda precisa ter acompanhamento e orientação médica. Por vezes, antes de prescrever a melatonina o profissional de saúde pode orientar uma mudança de hábitos, a chamada higiene do sono. Uma mudança que faz toda diferença na produção natural do hormônio e garantir um descanso de qualidade.

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