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Pastoral Escolar Salvatoriana

A sabedoria é um ato de amor

Volnei Fortuna
Ir. Patrícia Santana de Aragão Silva
Ângelo Dutra de Oliveira

Com o tema Fraternidade e educação e lema Fala com sabedoria, ensina com amor (cf. Pr 31,26), a Campanha da Fraternidade problematiza a educação enquanto um ato humano, caracterizado pelo aprender e ensinar. A Campanha da Fraternidade apresenta-nos pela terceira vez a reflexão sobre a educação. 1. 1982 – A verdade vos libertará; 2. 1998 – A serviço da vida e da esperança e; 3. 2022 – Fala com sabedoria, ensina com amor. A interconexão entre as Campanhas da Fraternidade apresentam caminhos que exigem das sociedades a garantia de políticas públicas, com embasamento ético e atitude dialógica. Essas frentes essenciais para a política, economia, cultura e sociedade estão intimamente imbricadas ao ato de educar. O ato de educar aqui exposto vai além da educação formal, sendo uma tarefa subjetiva no que tange o em-si-mesmo e intersubjetiva sobre a ótica da família, da escola, da Igreja e da comunidade. A educação integral contribui com a humanização, preservação da vida e conscientização, por isso, “é preciso de uma aldeia para educar uma criança” (Provérbio africano), sendo um serviço indispensável à humanidade.

A referência do Evangelho de João 8,1-11 ajuda-nos a elucidar duas lições sobre o ato de educar: 1. o valor do ser humano como princípio da educação e, 2. refere-se a correção, condução do sujeito ao caminho do bem. Orienta as pessoas ao caminho de uma vida transformadora com ênfase na paz, na justiça, no direito e na verdade. Tem como objetivo geral: “Promover diálogos a partir da realidade educativa do Brasil, à luz da fé cristã, propondo caminhos em favor do humanismo integral e solidário” (CNBB, 2021, p. 19). Desperta-nos a solidariedade diante de situações-limite da sociedade brasileira, apontando diagnóstico e prognóstico à luz do Evangelho.

A Campanha da Fraternidade segue a metodologia do Escutar que vislumbra na atualidade a conjectura do abraço, do discernir que exige julgar evangelicamente os desafios de cada tempo e o agir como exercício de transformação da realidade. Na dinâmica de aprofundamento do tema e lema, provoca-se a seguinte problematização: Qual o papel da educação para o contexto social contemporâneo? Como desenvolver processos de ensino, aprendizagem e evangelização diante do desafio provocado pela pandemia? A educação é compreendida como política pública universal? Que estratégias são possíveis através do jeito salvatoriano de ser na colaboração da educação brasileira? Neste sentido, na sequência estaremos apresentando a tríade Escutar – Discernir – Agir, como possibilidade da práxis reflexiva e crítica na educação.

A escuta oportuniza por meio do gesto e da palavra a desestabilidade do sujeito na condição de mero espectador. O ato da escuta é uma condição para falar com sabedoria e ensinar com amor. Diante do contexto de uma sociedade barulhenta, com excesso de informação, pautada pela oratória, mais do que nunca faz-se necessário o exercício da escutatória, do bem escutar. Jesus Cristo é um exemplo de escuta, demonstrou em sua pedagogia que o ponto de partida das relações humanas ocorre pela escuta. Escuta que acolhe, compreende, problematiza e transforma os contextos da realidade. “Escutar a realidade que nos fala é recuperar a percepção dos sinais dos tempo” (CNBB, 2021, p. 21). É a condição de (re) construção do projeto de humanidade e da história.

Na pandemia da Covid-19 aprendemos que a vida é um imperativo, sendo assim, educar é aprender com as nuances do cotidiano, fazendo-nos repensar o estilo de vida, das relações, a organicidade, o sentido da existência. Aqui também apresentou-se a desigualdade estrutural presente no Brasil, tanto em âmbito cultural, religioso, econômico, ambiental, quanto tecnológico, mesmo diante da intensificação dos avanços das tecnologias. Para tanto, faz-se necessário refletir sobre o projeto e o propósito de vida articulados com o projeto de sociedade que exige capacidade de cooperação e superação das desigualdades e, ainda mais, da radicalidade do individualismo que “é o vírus mais difícil de vencer” (CNBB, 2021, p. 25).

Provoca-se o sujeito a aprender com experiência do vivido para dar passos de superação da informação utilizando-se de mecanismos geradores de conhecimento que garanta sabedoria na tangibilidade da vida. A sabedoria encontra-se imbuída de perceptividade temporal na história e dos imprevistos e dualidades da vida. Para tanto, a intensificação da cultura do encontro diante de cada tempo, evoca-nos o rompimento de fronteiras (preconceito, ódio, indiferença), deixando- se arrebatar pela presença de outrem, educando para viver em comunhão. Na atualidade com o plasma do on-line, observa-se o distanciamento e uma nova forma de viver as relações humanas. Diante dos desafios éticos, políticos, pedagógicos, psicoculturais e da realidade virtual vigente, o espaço escolar tem um papel insubstituível. Lugar articulado, sistêmico, especializado que capacita para a emancipação e para a complexidade das relações sociais. “Educar é humanizar. A educação é um ato de amor e esperança no ser humano” (CNBB, 2021, p. 35). A problematização parte da hipótese de que a educação formal brasileira é um projeto inconcluso, por não ser pensada enquanto política pública. Por outro lado, as pessoas acreditam que a educação é uma oportunidade de melhoramento da vida e da justiça social.

Na Educação Básica, o Censo de 2020 apresenta o número de 47.874.246 estudantes matriculados e 2.212.018 educadores atuando em 180.610 escolas, atendidos pela rede municipal, estadual, federal e privada:

 

 

O Brasil carece de uma educação pública inclusiva, de qualidade e que dê condição para a efetividade da justiça social. Não priorizar a educação pública gera a continuidade do passivo social e do prolongamento das situações de injustiça para as próximas gerações. O Instituto de Geografia e Estatística apresentou em 2018 o número de 11,3 milhões de analfabetos com 15 anos ou mais de idade. Em 2019, dos 50 milhões de brasileiros entre 14 e 29 anos, 10,1 milhões não completaram o Ensino Fundamental ou Ensino Médio. Diante desse cenário, como estas pessoas interagem com as leis e direitos na sociedade? “Uma pessoa não é plenamente cidadã se não consegue fazer leitura crítica, argumentação e interação em uma sociedade letrada” (CNBB, 2021, p. 40).

No projeto educativo das Escolas Católicas e instituições de Ensino Superior, com referência em Jesus Cristo, entrelaça-se a síntese entre fé, cultura e vida. A Associação Nacional de Educação Católica – ANEC apresenta a abrangência da Educação Católica, “com 89 Instituições do Ensino Superior e mais de 1500 Escolas, 365 mantenedoras, 110.000 educadores, possui 1,5 milhões de estudantes em suas Instituições” (CNBB, 2021, p. 43). A dinâmica educativa pauta-se pelo humanismo integral. Investe na formação dos educadores sobre a ótica do compromisso ético, desenvolvimento sustentável, inovação e justiça social, transcendendo a lógica de mercado. Os educadores são provocados a trabalharem por uma educação que promova a vida, que resgate a dignidade, que exercite a solidariedade, a percepção da ecologia humana, do bem viver, do humanismo solidário. A dialética educativa tem a responsabilidade de “fortalecer o prisma da multiculturalidade e interculturalidade […], promover uma vivência participativa e cristã” (CNBB, 2021, p. 57), rompendo toda e qualquer barreira que silencia os seres humanos.

Escutar a realidade é um exercício que conduz a pessoa humana para a necessária tomada de posicionamento diante das circunstâncias da vida. “Entre a escuta e a ação, unge a prática do discernimento à luz dos critérios da Fé e da Tradição Cristã” (CNBB, 2021, p. 58). O caminho de discernimento é orante e ocorre através da escuta da Palavra de Deus que leva o ser humano a uma compreensão e a expressão de si, do outro e da realidade.

O Bem-aventurado Francisco Jordan nos diz: “Reza, diariamente, o ‘Vinde Espírito Santo’ […], a fim de que sempre possas discernir e realizar o que convém” (DE, 1996, p.13). Somos seres de discernimento. O ser humano está a todo instante discernindo, consciente ou inconscientemente. Trata-se do discernimento cristão que convida a tomar decisões conscientes à luz da Palavra de Deus. Ao falar do discernir a partir dos princípios cristãos, se está além de discernir entre uma coisa boa e outra ruim. O discernimento cristão acontece quando há duas coisas aparentemente boas, como por exemplo: escolher entre ir na aula ou assistir um filme.

No discernimento cristão a referência é Jesus de Nazaré. Os Evangelistas apresentam nos evangelhos que Jesus muitas vezes se colocou em discernimento. No Evangelho de João 8,1-11, ao escutar as acusações contra a mulher que foi pega em adultério, Jesus toma a palavra e faz valer a misericórdia, o perdão e a empatia como caminho novo para aquela mulher continuar a viver resgatada na força do amor, da compreensão e da Boa Nova do Reino de Deus. O caminho da misericórdia orientado por Jesus não exclui ninguém. No evangelho de Lucas, Jesus sobe a montanha e passa a noite em oração, ou seja, em discernimento. E ao descer da montanha escolhe os 12 apóstolos. Em diversas passagens dos evangelhos Jesus que se põe a discernir.

Diariamente somos chamados a tomar pequenas e grandes decisões. Essas são feitas à luz de valores da educação familiar. Para os cristãos, as decisões são tomadas à luz dos valores familiares e à luz da fé. O Papa Francisco exorta na Encíclica Gaudete et Exsultate: “é verdade que o discernimento espiritual não exclui as contribuições de sabedorias humanas, existenciais, psicológicas, sociológicas ou morais, mas transcende-as. […] Não está em jogo apenas um bem- estar temporal, nem a satisfação de realizar algo de útil, nem mesmo o desejo de ter a consciência tranquila. Está em jogo o sentido da minha vida diante do Pai que me conhece e ama, aquele sentido verdadeiro para o qual posso orientar a minha existência e que ninguém conhece melhor do que Ele” (FRANCISCO, 2018, p. 170).

É necessário discernir os desafios da realidade educativa para alcançar propostas significativas de superação de lacunas que comprometem a qualidade da educação em todo campo de ação. “Na educação, o discernimento é um passo importante para sazonar “a vida como futuro ao mesmo tempo em que estimula o nosso agir que se resume em uma só verdade: o cristianismo é um modo de viver, é viver em Cristo, é ação, compromisso e transformação” (CNBB, 2021, p. 59).

Como é possível discernir as principais referências da educação na perspectiva cristã? Não cabe julgar os diferentes modelos educativos, mas refletir sobre os princípios e as características da educação na perspectiva da Fé cristã. A Palavra de Deus mostra a imagem de um Deus próximo que se revela nas pessoas, num contexto histórico e cultural. Ao olhar para a vida de Jesus percebe-se que suas Palavras e ações, seu método de ensinar estava em sintonia com os costumes e as práticas da cultura semita na qual Ele se encarnou. Como a Educação tem se inculturado nas diversas culturas brasileiras?

O evangelho revela como Jesus atraía pessoas, grupos e multidão sobretudo pelo seu modo de ensinar. Seus discípulos aprendiam com Jesus quando caminhavam seguindo seus passos e, após a ressurreição, assumindo com coragem o mandato missionário conferido pelo Senhor Ressuscitado. O “ide e anunciai” (Mt 28,19-20) impulsionou a vida dos seguidores e seguidoras de Jesus e inspirou nosso Fundador a iniciar a Família Salvatoriana. Jesus ensinava através das ações e pelo diálogo. Sua capacidade de iniciar uma conversa com os seus interlocutores demonstra seu apreço ao uso da palavra como meio de envolver a pessoa em sua inteligência, memória e afeto. A disposição de Jesus em ouvir os pedidos, os relatos de dor e sofrimento e as perguntas é sinal de uma pedagogia em que o ensino está associado ao reconhecimento da subjetividade da pessoa.

Para a Igreja a educação é um elemento essencial da missão de Deus aqui na terra, desde a antiguidade até a atualidade, enriquecida pelos exemplos de pessoas que deram e dão um fervoroso testemunho de fé através do empenho educativo. Muitos cristãos colaboram para a edificação de uma sociedade mais fraterna e justa através da educação. Hoje continua-se a missão de Jesus. Somos discípulos missionários educadores, assumindo a tarefa de colaborar na formação integral dos estudantes. Encarna-se a Boa Nova do Reino na aspiração de educar e formar as novas gerações para que assumam seu protagonismo no mundo. Iluminados pela fé em Jesus, mestre e educador, a missão educativa de discípulos missionários tem sido promover a fraternidade a partir da força transformadora do Evangelho. Esse jeito de ensinar reconhece todos como filhos e filhas de Deus, levando-os ao amor e ao serviço.

Toda proposta educativa tem uma implícita concepção do ser humano, da sociedade e da história. A Educação cristã não é diferente, considerando que parte da visão positiva e integral do ser humano como ser responsável por si mesmo e pelo mundo, como ser livre, aberto à transcendência e culturalmente e, etnicamente conduzido para a justiça e a fraternidade. A educação é o meio que proporciona o desenvolvimento integral do ser humano, sendo assim, a Igreja compreende que a educação é um direito universal, seja na infância, na juventude, na vida adulta, seja na terceira idade. A educação deve ser um direito garantido para todos. É responsabilidade do estado garantir o acesso à educação. A família, a escola e a sociedade precisam oferecer os melhores esforços para formar pessoas maduras, com responsabilidade na construção do bem comum, na promoção da educação integral.

Uma educação que queira ser integral não exclui a sabedoria cristã, que afirma a profunda ligação do ser humano com Deus. O autêntico cristianismo permite que o ser humano seja capaz de encontrar-se e entusiasmar-se a ser mais no mundo e a criar mais vida em si e ao redor de si. “Vai, e de agora em diante, não peques mais” (Jo 8,11). Um chamado quaresmal que desafia os cristãos para o exercício de mudança de vida e ressignificação de vivências. Ao observar com olhar de Discípulos o caminho traçado por Jesus, o Divino Salvador, encontra-se em seus atos e palavras a orientação para um caminho pedagógico, nas mais diversas situações relatadas nas Sagradas Escrituras.

A luz da passagem da mulher adúltera, retira-se a perícope com a qual reflexão discorre. As palavras dirigidas por Jesus àquela mulher ecoam hoje nos mais diversos cenários de nossa vida cotidiana. Mas, como olhar para esta passagem e encontrar seu sentido para o ambiente educacional? Toda a passagem é pedagógica, Jesus ouve a realidade, conhece a lei e seu sentido, ouve aquilo que os outros falam e, então, conclui o processo pedagógico acerca do que fora inquirido: “Que dizes tu sobre isso?” (Jo 8,5). Olhando para a multidão não diz nada além da sentença “Quem de vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra” (Jo 8,7). Ou seja, o Divino Salvador não dá respostas prontas, mas lança a interpretação da lei e desafia a seus interlocutores para que compreendam a mensagem profunda da mesma. Aqui revela-se a Sabedoria de Jesus, que invalida a tentativa dos Mestres da Lei em desautorizá-lo acerca de seus ensinamentos, ao mesmo tempo em que valida todo seu ministério pautado na ressignificação da lei a partir da ótica do amor incondicional.

Ao olhar com atenção este evento descobre-se a nuance pedagógica de Jesus, que ao ensinar, convoca no final a uma nova postura, onde revela-se a necessidade da disciplina, inerente aos processos pedagógicos. Revela-se uma nova forma de aprendizagem baseada no ideal de que “[…] educar é um ato de esperança no ser humano […]” (CNBB, 2021, p. 86). Esta perspectiva aponta o horizonte esperado para todo e qualquer processo pedagógico desenvolvido não apenas em ambientes escolares confessionais, mas em todos os ambientes existentes, sejam das esferas pública ou privada. É preciso resgatar o valor do poder transformador da educação.

A educação cristã está baseada na formação integral do ser humano, baseando-se nos ensinamentos do Divino Salvador que conclama a ser discípulos e missionários, atrelados a vivência das Sagradas Escrituras e seus ensinamentos. É possível retomar a conclusão do Evangelho de São Mateus, onde é deixada a missão de “Ide, pois, e fazei discípulos todos os povos, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ensinai-os a observar tudo o que vos mandei. Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos” (Mt 28,19-20). Este chamado deixado pelo Divino Salvador é um desafio ao testemunho de vida, pela alegria de ser um anunciador da Boa Nova nos ambientes pastorais e a serviço de uma educação integral, buscando despertar nas pessoas o espírito da fraternidade e do comprometimento com os pobres e necessitados. Não se pode falar em uma nova aprendizagem sem olhar para uma educação humanizada, onde sejam colocadas as pessoas no centro dos processos desenvolvidos nas instituições de ensino. A educação não pode ser vista apenas como um processo de ensino e de aprendizagem de conteúdos, precisa despertar os envolvidos para um humanismo solidário, transpondo as paredes da sala de aula e alcançando a cada âmbito da experiência social em que a educação possa atingir. “Uma educação humanizada não pode limitar-se a fornecer serviços de formação, mas também cuidar dos seus resultados no horizonte das capacidades pessoais, morais e sociais dos participantes no processo educativo […]” (CNBB, 2021, p. 87).

Ao olharmos para os desafios despontados na educação básica no Brasil é possível perceber uma preocupação crescente com essa formação integral, por parte de alguns envolvidos nos processos pedagógicos. A Base Nacional Comum Curricular – BNCC procura orientar os processos educativos para a vida social dos envolvidos no processo, despertando a responsabilidade de cada um em seu contexto social. Para o ambiente confessional insere-se a preocupação com o ambiente eclesial, com o desafio de não somente despertar a solidariedade, mas o espírito de partilha e comunhão.

Todo o conhecimento produzido precisa estar orientado para a ética, a paz, a lucidez e o bem comum, não sendo reduzido apenas a interesses mercadológicos, a serviço do consumo desenfreado, da competitividade e da guerra (CNBB, 2021, p. 88). Portanto, insere-se a preocupação com a elaboração de um projeto de vida, o qual visa orientar todas as buscas elaboradas no âmbito educacional e a transformação da sociedade, dando a máxima atenção a mudança de certas posturas e o encontro de prioridades voltadas ao bem comum.

O espírito cristão que orienta essa busca está alicerçado sobre a compreensão de que o ser humano foi criado por Deus para que a humanidade se realize e alcance a plenitude de sua existência, visto que fomos feitos à Sua “imagem e semelhança”. A existência humana não é uma causalidade, visa um bem determinado, um projeto querido por Deus, onde cada indivíduo é desafiado a desempenhar sua missão, fundamentada em uma vocação. “A vida de cada pessoa precisa ter marcas históricas que a projetam para um caminho de realização pessoal. Deve ser uma construção ascendente e de encontro com o bem, e o maior bem é colocar em prática os ensinamentos de Jesus Cristo […] (CNBB, 2021, p. 89).

Nessa senda encontramos a proposta do Projeto de Vida como caminho pedagógico desvelado pela BNCC, ecoando o chamado que a Igreja aponta como saída para a formação integral e humanizada. O trabalho pedagógico voltado para o desenvolvimento de um projeto
de vida “[…] deve focar na realização do bem, principalmente do bem comum, o bem social […]” (CNBB, 2021, p. 89). Desafia o fato de que este projeto tem que buscar a autenticidade do testemunho de fé e experiência consolidada de encontro com Deus, iluminando com as Sagradas Escrituras, em busca de criar relações alicerçadas sobre o amor e a fraternidade. Se a construção de uma proposta de projeto de vida seguir estas orientações será possível transformar relações de convivência interpessoal. É aquilo que falamos de uma ressignificação existencial que eleva a dignidade das pessoas.

Em consonância com esta proposta abordada é necessário olhar para o Pacto Educativo Global, que entende a educação como um processo social, com uma visão comum, construindo espaços de unidade, embasadas na inclusão, escuta e diálogo (CNBB, 2021, p. 90). Nesta
perspectiva, compreende-se que todos precisam cooperar envolvendo-se diretamente nos processos educativos, de forma criativa e construtiva. O maior desafio apontado é a qualidade do relacionamento que deve ser estabelecido entre os atores do processo educativo (educador e estudante), onde “[…] o relacionamento deles […] os educa mutuamente num intercâmbio dialógico que os pressupõe e, ao mesmo tempo, os supera […]” (CNBB, 2021, p. 91). Esta característica vai revelar o sentido de colocar as pessoas e as relações que constrói
cotidianamente.

Por fim, destaca-se o desafio de educar para um novo humanismo, revelando a necessidade de cultivo do humanismo solidário e a construção da civilização do amor, observando às seguintes condições: “[…] promover a cultura do diálogo, a globalização da esperança, buscar uma verdadeira inclusão, criar redes de cooperação” (CNBB, 2021, p. 91). Para que esse processo seja realizado, são necessárias dinâmicas inclusivas, desenvolvendo formações docentes voltadas para temas como sustentabilidade e solidariedade, fomentando a criação de grupos de pesquisa integrados, envolvendo todos os atores do ambiente educacional (educadores, jovens pesquisadores e estudantes). Desse modo, criar-se-á uma rede de serviços que potencializam a ajuda recíproca e a partilha de novas descobertas. Educar é iniciar processos. Esse foi o desvelar causado pela pandemia que instaurou uma nova realidade educacional, percebendo a vulnerabilidade das realidades, percebendo interconexões das diversas realidades. O período da pandemia ao mesmo tempo que possibilitou a redescoberta da compaixão e da misericórdia de Deus, potencializou pensar boas práticas, envolvendo a solidariedade com os pobres, envolvendo a elaboração de políticas públicas voltadas para a valorização dos ambientes educacionais e a inclusão daqueles que outrora encontram-se em situação de vulnerabilidade.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

CNBB. Campanha da Fraternidade 2022: Texto-Base. Brasília: Edições CNBB, 2021.

BÍBLIA SAGRADA. Tradução de Ivo Storniolo e Euclides Martins Balancin. Brasília:
Edição Pastoral, 1991.

JORDAN. Francisco Maria da Cruz. Diário Espiritual. São Paulo: Publicações da CIS
(Colaboração Intersalvatoriana), 1996.

FRANCISCO. Exortação Apostólica: Gaudete et Exsultate [Sobre a chamada a santidade no
mundo atual]. 19 de março de 2018. Disponível em:

https://www.vatican.va/content/francesco/pt/apost_exhortations/documents/papa-
francesco_esortazione-ap_20180319_gaudete-et-exsultate.html. Acesso em: 06.12.2021.

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