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O que está em questão quando se diz “não”?
Há algum tempo pesquisadores têm se interrogado se a infância – invenção moderna – estaria em extinção no que atualmente se chama de pós-modernidade. Dessa hipótese, uma outra se torna possível: estariam também os adultos em extinção? Convém destacar que as mudanças de um mundo industrializado para o culto à liberdade consumista, fizeram, sim, deslocar o perfil de um adulto voltado ao dever (cumpridor dos seus deveres) para um indivíduo devotado aos prazeres (livre acesso às expressões de seus impulsos).
Essa questão nos aproxima de uma faceta peculiar de nosso tempo no que diz respeito ao “não”. Na conjuntura da sociedade de consumo em que o imperativo moral diz respeito a uma felicidade a qualquer preço, fica particularmente complicado conviver com a ideia de fatores restritivos. Primeiramente, a marca que viabiliza aos adultos sustentar diante dos pequenos algo que seja da ordem de um “não”, reporta-os a sua própria história singular, que esteve enlatada a processos de frustração e privação, dos quais, via de regra, querem eximir os pequenos. Um agravante está relacionado ao fato de que as crianças de hoje entram como “sonho de consumo” dos pais. Entenda-se aqui que os filhos são projetados, esperados e imaginados como aqueles capazes de vir preencher a difundida lógica de que “todos deveriam plantar uma árvores, escrever um livro e… ter um filho”. Até aqui, tudo bem. O problema costuma se dar quando os pais ficam tomados numa posição de “dívida” em relação aos filhos e interpelados como quem deveria prover as condições ideais para garantir plena felicidade e, quando não, há culpa. Aqui, o “não” não pode aparecer de outra forma que não deslocado para fora do circuito. Além disso, o “não” passou a ocupar a posição de causa dos difamados traumas, tornando-se objetivo de ocupação dos teóricos da Psicologia e da Educação que postulavam seus “efeitos nefastos” na subjetividade. Esse processo representa o advento das especialidades e a interferência delas nos processos tradicionais da educação.

Então, o perfil atual do adulto teve modificada sua posição diante da vida e dos pequenos. Um dos efeitos possíveis de se pensar foi o abrandamento das características que demarcavam diferenças nítidas entre as gerações. É nessa dimensão que, penso eu, temos algo de genuíno a interrogar sobre as atuais discussões em torno do ‘não”, e dos limites que ele poderia indicar.
Alternativa: talvez, na posição de pais, ter mais resolvida nossa condição de filhos (o filme A busca, de Luciano Moura, 2011, tem algo a nos ensinar sobre isso) e, assim sendo, sustentar com maior autonomia, a diferença que os pequenos anseiam por enxergar (embora algumas vezes, possam brigar com ela). É, nessa diferença, pode dizer alguns “nãos”, sustentá-los e dar notícias de quem é o adulto da relação.

Reinaldo Chiaradia
Psicólogo, especialista em Saúde Mental, Psicopatologia e Psicanálise, mestre em Filosofia.
Coordenador Pedagógico Regional da Editora Positivo.
Edição Especial Família- Revista Atividades & Experiências – Editora Positivo
